domingo, 28 de agosto de 2016

Os magos na Legenda áurea de Jacopo de Varazze


Das hagiografias1 medievais a Legenda áurea2, ou Lenda dourada, do monge dominicano genovês Jacopo de Varazze (1228-1298), é sem dúvidas a obra mais conhecida, mais duradoura e de maior importância.

Jacopo pretendeu construir um vasto texto contendo algumas das mais respeitáveis narrativas hagiográficas que haviam chegado à sua época, a fim de disponibilizá-las aos seus “colegas de hábitos”, os dominicanos ou frades pregadores, para que eles tivessem à disposição o material necessário para suas homilias. A data de sua redação é incerta: entre 1253 e 12703.

A obra continha 182 capítulos originais, os quais foram ampliados posteriormente para os 243 capítulos hoje conhecidos – certamente trabalho dos copistas que a preservaram nos séculos seguintes4.

Trata-se de um best-seller da literatura medieval, e como bem observou o historiador e medievalista francês Jérôme Baschet: “(...) a Legenda áurea (...) é para a hagiografia o que as Summas são para a Teologia5.

A influência da Legenda sobre a arte europeia também é bastante relevante, a ponto de ter sido referida como “a fonte principal da iconografia cristã até quase nossos dias”6.

 O período em que Jacopo realizou a seleção e redação de sua narrativa, a Europa do século XIII, era uma época de mudanças no que diz respeito aos critérios e modelos de santidade, que a partir de então passavam a estar focados mais nos comportamentos morais dos santos, e menos nos milagres alcançados por eles7, isto é, santos e santas deveriam ser modelos de conduta moral e não simplesmente milagreiros. Ainda assim, é sempre válido lembrar que os cultos às relíquias e as peregrinações aos lugares santos mantinham sua proeminência, e locais como Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela estavam entre os centros que mais atraíam peregrinos8.

Como não poderia ser diferente, os magos também possuíam lugares dedicados à sua veneração, dos quais destacava-se a Catedral de Colônia, Alemanha, que abrigava seus restos mortais num belíssimo relicário de ouro maciço e pedras preciosas do século XIII9. Em 30 Jul. 1245 e em 25 Abr. 1247 o papa Inocêncio IV conferiu duas concessões à Catedral de Colônia: aqueles que a ela se dirigissem com "devoção e reverência e em pureza de coração" em duas datas especiais - no dia de sua consagração e no dia da festa dos santos Três Magos - receberiam 40 dias de penitência anual10, isto é, 40 dias garantidos de absolvição dos pecados.

No capítulo 14 da Legenda áurea, intitulado A Epifania do Senhor, Varazze falou sobre os magos, seus vários nomes, os significados dos seus presentes e inclusive da veneração prestada às suas relíquias em Colônia. Abaixo transcrevemos na íntegra esse capítulo11.

14. A Epifania do Senhor

A Epifania do Senhor é celebrada por quatro milagres, o que a faz receber quatro nomes diferentes. Nessa data os magos adoram Cristo, João batiza Cristo, Cristo transforma a água em vinho e alimenta 5 mil homens com cinco pães. Jesus tinha treze dias quando, conduzidos pela estrela, os magos foram encontrá-lo, daí o nome Epifania, de epí, "em cima", e phanos, "aparição", porque a estrela apareceu no céu para indicar que Cristo era o verdadeiro Deus. No mesmo dia, 29 anos depois, Ele foi batizado no Jordão. Isso aconteceu, diz Lucas, quando Ele tinha trinta anos, pois tendo na verdade 29 anos e treze dias, Beda observa que Ele estava no seu trigésimo ano, o que é a crença da Igreja romana. Por ter sido batizado no Jordão, daí vem o outro nome dado à festa, Teofania, de Theos, "Deus", e phanos, "aparição", porque nesse momento a Trindade manifestou-se: o Pai, na voz que se fez ouvir; o Filho, na carne; o Espírito Santo, na forma de uma pomba. No mesmo dia, um ano depois, quando tinha trinta anos e treze dias, ou seja, estava nos seus 3 1 anos, transformou a água em vinho, daí o outro nome dado à solenidade, Betânia, de beth, "casa", porque através de um milagre feito numa casa ele apareceu como verdadeiro Deus. Ainda nesse mesmo dia, um ano depois, quando tinha 31 anos e treze dias, isto é, 32, saciou 5 mil homens com cinco pães, segundo Beda e o hino cantado em muitas igrejas, que começa com Illuminans altissimum. Daí o nome de Fagifania, de phagê, "boca" e "comer". Há dúvidas sobre se esse quarto milagre foi realizado nesse dia, porque isso não é afirmado nem por Beda nem por João, 6, que ao falar de tal milagre diz apenas que " o dia de Páscoa estava próximo".

De forma geral, aceita-se que a quádrupla aparição deu-se na mesma data. A primeira pela estrela sobre o presépio, a segunda pela voz do Pai sobre o rio Jordão, a terceira pela transformação da água em vinho na refeição, a quarta pela multiplicação dos pães no deserto. Mas é principalmente a primeira aparição que celebramos hoje, por isso é sua história que vamos contar a seguir.

Quando do nascimento do Senhor, foram a Jerusalém três magos, chamados em hebraico Apelio, Amerio, Damasco; em grego Galgalat, Malgalat, Sarathin; em latim Gaspar, Baltazar, Melquior. A palavra mago tem três significações: "enganador" "feiticeiro" e "sábio". Alguns pretendem que esses reis foram chamados magos, isto é, enganadores, por terem enganado Herodes, não voltando até ele. Está dito no Evangelho, sobre Herodes: "Vendo que tinha sido enganado pelos magos etc." (Mateus 2,16) Mago também quer dizer feiticeiro. Os feiticeiros do faraó eram chamados magos, e Crisóstomo diz que daí vem o nome deles. De acordo com esse autor, seriam feiticeiros a quem o Senhor quis converter revelando seu nascimento, e com isso dar aos pecadores a esperança do perdão. Mago também quer dizer sábio, pois em hebreu corresponde a "escriba", em grego, a "filósofo", em latim, a "sábio" São portanto chamados de magos pela Escritura para indicar que eram sábios, donos de grande sabedoria.

Esses três sábios reis foram a Jerusalém com um grande séquito. Mas por que os magos foram a Jerusalém, se o Senhor não nasceu ali? Remígio dá quatro razões para isso. A primeira é que os magos souberam a época do nascimento de Cristo, mas não o lugar. Ora, como Jerusalém era uma cidade de rei e de sumo sacerdote, pensaram que uma criança tão distinta não devia nascer em outro lugar. A segunda é que mesmo que o nascimento não tivesse ocorrido ali, naquela cidade de muitos escribas e doutores na Lei eles poderiam melhor se informar a respeito. A terceira é que os judeus ficariam sem desculpa, pois eles teriam podido dizer: "Sabemos o lugar do nascimento, mas ignoramos o tempo, e é por isso que não acreditamos" Ora, os magos indicaram aos judeus o tempo, e os judeus indicaram o lugar aos magos. A quarta é para que a diligência dos magos se tornasse a condenação da indolência dos judeus, porque os magos acreditaram a partir de uma só profecia, enquanto os judeus recusaram-se a crer em várias. Os magos buscaram um rei estrangeiro, os judeus não procuraram o deles próprio. Uns vieram de longe, os outros permaneceram inertes no local.

Os magos foram reis e sucessores de Balaão. Foram a Jerusalém ao ver a estrela, seguindo a profecia de seu pai: "Uma estrela se erguerá sobre Jacó e um homem sairá de Israel" (Números 24,17). Outro motivo de sua ida é dado por Crisóstomo em seu comentário sobre Mateus:

Certos autores concordam que alguns astrólogos escolheram doze entre eles para observar o céu, e se um viesse a morrer, seu filho ou um de seus próximos o substituiria. Todos os anos, em diferentes meses, os doze subiam na montanha da Vitória e lá permaneciam três dias, fazendo abluções e pedindo a Deus que lhes mostrasse a estrela predita por Balaão. Certa vez, no dia do nascimento do Senhor, eles estavam na montanha quando apareceu uma estrela com a forma de um magnífico menino, sobre cuja cabeça brilhava uma cruz, e que disse aos magos: "Apressem-se em ir à terra de Judá, onde encontrarão o rei recém-nascido que vocês buscam"

Eles puseram-se imediatamente a caminho. Mas como, em tão pouco tempo, apenas treze dias, foi possível percorrer tão longo caminho, isto é, do Oriente até Jerusalém, que se diz estar no centro do mundo? Segundo Remígio, foi o Menino que eles buscavam que os levou assim depressa. Ou então podemos crer, com Jerônimo, que foram montados em dromedários, animais muito velozes que fazem em um dia o caminho que um cavalo leva três para percorrer. Por isso é chamado dromedário, de dromos, "corrida", e ares, "força" Chegando a Jerusalém, perguntaram onde estava aquele que nascera rei dos judeus. Não perguntaram se nascera, e sim onde nascera. E quando alguém indagou: "Como sabem que esse rei nasceu?", eles responderam: "Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo" Essa resposta quer dizer duas coisas: "Nós, que vivemos no Oriente, vimos a estrela que indica seu nascimento pousada sobre a Judéia", ou então: "Estando em nosso país, vimos sua estrela no Oriente" Com essas palavras, como diz Remígio, eles reconheceram que o Menino era um verdadeiro homem, um verdadeiro rei e um verdadeiro Deus. Um verdadeiro homem, quando disseram: "Onde está aquele que nasceu?" Um verdadeiro rei, ao acrescentarem: "Rei dos judeus" Um verdadeiro Deus, ao manifestarem: "Viemos adorá-lo", pois todos concordavam que só Deus deve ser adorado.

Mas ao saber disso, Herodes ficou inquieto, e Jerusalém inteira com ele. O rei ficou inquieto por três motivos. Primeiro, por medo de que os judeus recebessem como seu rei esse recém-nascido e expulsassem a ele, Herodes, como estrangeiro. O que fez Crisóstomo dizer: "Assim como um ramo situado no alto de uma árvore é agitado por uma leve brisa, também os homens elevados ao ápice da dignidade são atormentados pelo mais leve rumor" Segundo, por medo de ser incriminado pelos romanos se alguém fosse chamado rei sem ter sido instituído por Augusto. Os romanos tinham ordenado que nenhum deus ou rei fosse reconhecido sem ordem ou permissão deles. Terceiro, porque, diz Gregório, tendo nascido o rei do Céu, o rei da terra ficou alvoroçado já que a grandeza terrestre é diminuída quando a grandeza celeste é revelada. Toda Jerusalém ficou inquieta com ele por três razões. Primeira, porque os ímpios não poderiam se rejubilar com a vinda do Justo. Segunda, para, mostrando-se inquieta, adular o rei inquieto. Terceira, porque assim como o choque do vento agita as águas, se os reis se batem o povo fica alvoroçado, por temer ser envolvido na luta entre ambos. Essa foi a razão dada por Crisóstomo.

Então Herodes convocou todos os sacerdotes e todos os escribas para perguntar onde nasceria o Cristo. Quando soube que seria em Belém de Judá, chamou os magos em segredo e informou-se com eles do instante em que a estrela tinha aparecido, pedindo-lhes que depois de encontrarem o menino voltassem para lhe dizer, fingindo querer adorar aquele que desejava matar. Notemos que assim que os magos entraram em Jerusalém, a estrela parou de conduzi-los, e isso por três razões. A primeira, para que fossem forçados a indagar sobre o lugar de nascimento do Cristo, verificando então que esse nascimento estava pressagiado não somente pela estrela, mas também por várias profecias. A segunda, porque ao terem buscado o auxílio dos homens, mereceram ficar sem o auxílio divino. A terceira, porque de acordo com o apóstolo os sinais foram dados aos infiéis e a profecia aos fiéis: sendo pagãos, os magos foram guiados por um sinal, a estrela, que deixou de lhes aparecer quando passaram a estar entre os judeus, que eram fiéis. Essas três razões foram dadas pela GLOSA (compilação feita em Paris em meados do século XII, reunindo comentários bíblicos antigos e contemporâneos).

Depois que saíram de Jerusalém, a estrela voltou a guiá-los até o lugar em que estava o menino. Sobre a natureza dessa estrela há três opiniões, explicadas por Remígio. Alguns sustentam que era o Espírito Santo, que assim como desceria mais tarde sobre o Senhor, depois do seu batismo, sob a forma de uma pomba, apareceu aos magos sob a forma de uma estrela. Outros dizem, com Crisóstomo, que a estrela era o anjo que apareceu aos pastores para anunciar o nascimento. Como estes eram judeus, então racionais, o anjo apareceu sob forma racional, mas para os gentios, portanto irracionais, assumiu forma irracional. Outros ainda, e essa é a opinião mais verossímil, garantem que foi uma estrela recém-criada, que após cumprir sua missão voltou a seu estado primitivo.

Essa estrela, segundo Fulgêncio (esse discípulo de Santo Agostinho foi bispo de Ruspe, no Norte da África, onde faleceu em 53. Suas obras dedicaram-se a defender a ortodoxia contra as heresias do arianismo e do semipelagianismo), diferia das demais de três maneiras. Em localização, porque não estava no firmamento, mas suspensa num espaço aéreo próximo da terra. Em brilho, porque era obviamente mais fulgurante do que as outras, já que o sol não era capaz de ofuscá-la, sendo visível em pleno meio-dia. Em movimento, que não era circular mas progressivo, indo à frente dos magos, como um guia. A Glosa comenta as palavras de Mateus, 2: "Esta estrela do nascimento do Senhor etc.", acrescentando três outras diferenças. Primeira, ela diferia em sua origem, já que as outras haviam sido criadas no começo do mundo e esta acabava de ser criada. Segunda, em sua destinação, pois as outras tinham sido feitas para indicar tempos e estações, como está dito no capítulo primeiro do Gênesis, e esta para mostrar o caminho aos magos. Terceira, em sua duração, já que as outras são perpétuas, e esta voltou a seu estado primitivo após cumprir sua missão.

Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram enorme alegria. Notemos que a estrela vista pelos magos é quíntupla, é estrela material, estrela espiritual, estrela intelectual, estrela racional e estrela suprasubstancial. A primeira, material, eles viram no Oriente. A segunda, espiritual, que é a fé, eles viram em seu coração, porque se os raios dessa estrela não tivessem atingido seu coração nunca teriam conseguido ver a primeira estrela. Eles tiveram fé na humanidade do Salvador quando disseram: "Onde está aquele que nasceu?" Tiveram fé em sua dignidade real quando disseram: "Rei dos judeus" Tiveram fé em sua divindade quando disseram: "Viemos adorá-lo". A terceira, a estrela intelectual, que é o anjo, eles viram durante o sono, quando foram avisados por ele para não voltarem para junto de Herodes. Mas, de acordo com certa glosa, não foi um anjo, e sim o próprio Senhor que lhes apareceu. A quarta estrela, racional, fo i a Santa Virgem, que viram no estábulo. A quinta, supra-substancial, foi Cristo, que viram no presépio. A aparição dessas duas últimas estrelas está referida na Escritura quando diz: "Entrando na casa, encontraram o menino com Maria, sua mãe etc." (Mateus 2,1 1)

Cada uma dessas realidades é chamada estrela. A primeira pelos Salmos: "A lua e as estrelas que você criou". A segunda pelo Eclesiastes, 43: "A beleza do Céu, isto é, do homem celeste, é o brilho das estrelas, isto é, das virtudes". A terceira por Baruch, 3: "As estrelas difundiram sua luz e alegraram-se". A quarta pela liturgia: "Salve, estrela do mar". A quinta pelo Apocalipse, último capítulo: "Sou o rebento e o filho de Davi, a estrela brilhante, a estrela da manhã". Ao verem a primeira e a segunda, os magos alegraram-se; ao verem a terceira, rejubilaram-se; ao verem a quarta, rejubilaram-se com grande alegria; ao verem a quinta, rejubilaram- se com enorme alegria. Ou, como diz a Glosa: "Rejubila-se com alegria aquele que se rejubila em Deus, que é a verdadeira alegria", e acrescenta: "grande, porque nada é maior que Ele", e "muito grande, porque podemos nos rejubilar com uma alegria mais ou menos grande" ou então, pelo exagero dessas expressões o evangelista quis mostrar que os homens rejubilam-se mais com as coisas perdidas que voltaram a encontrar do que com as que sempre possuíram.

Depois de terem entrado na humilde morada e encontrado a criança com a mãe, os magos ajoelharam-se e cada um ofereceu presentes: ouro, incenso e mirra. Agostinho exclama sobre isso:

Ó infância extraordinária, à qual os astros estão submetidos. Que grandeza! Que glória imensa n'Aquele diante de cujos cueiros os anjos prosternam-se, os astros assistem, os reis tremem e os sábios põem-se de joelhos! Ó bem-aventurada choupana, trono de Deus fora do Céu, iluminado não por um candeeiro, mas por uma estrela! Ó celeste palácio em que habita não um rei coberto de pedrarias, mas Deus encarnado, que tem por leito delicado uma dura manjedoura, por cobertura dourada um teto de palha escuro, decorado por uma estrela! Quando olho aqueles cueiros fico encantado, e olho para os Céus; quando vejo o presépio com um mendigo mais brilhante que os astros, fico inflamado.

Diz Bernardo: "Que fazem, magos, que fazem, adorando uma criança de peito num vil estábulo? Será ele um Deus? Que fazem ao lhe ofertarem ouro? Será um rei? Onde está, então, seu salão régio, seu trono, sua corte? Será que a corte é o estábulo, o trono a manjedoura, os cortesãos José e Maria? Os magos pareceram insensatos, para serem sábios".

Eis o que diz a esse respeito Hilário no segundo livro de seu Sobre a Tríndade: "Uma virgem pare, mas aquele que é parido vem de Deus. Ao mesmo tempo ouvem-se os vagidos do menino e a louvação dos anjos. Enquanto humano suja os cueiros, enquanto Deus é adorado. A dignidade do poder não fica diminuída, pois a humildade da carne é exaltada. No Cristo menino encontramos humildade e enfermidade, mas também sublimidade e grandeza divinas" Comentando a Epístola aos hebreus, diz Jerônimo: "Olhe o berço de Cristo e verá o Céu; perceberá um menino chorando numa manjedoura, mas ao mesmo tempo ouvirá os cânticos dos anjos. Herodes o persegue, mas os magos o adoram; os fariseus não o conhecem, mas a estrela o proclama; Ele é batizado por um inferior, mas das alturas ressoa a voz de Deus; Ele é imerso na água, mas desce sobre Ele a pomba, isto é, o Espírito Santo sob forma de pomba".

Podemos apontar várias razões para os presentes ofertados pelos magos. Primeira, diz Remígio, era uma tradição antiga que ninguém se aproximava de Deus ou de um rei de mãos vazias. Os persas e os caldeus tinham o costume de oferecer presentes a tais personagens, e os magos, como está dito na HISTÓRIA ESCOLÁSTICA (obra na qual Pedro Comestor (c.1140 - c. 1179) comenta toda a história santa. estabelecendo relações entre ela e a história profana), vinham dos confins da Pérsia e da Caldéia, onde corre o rio de Sabá, por isso seu país era conhecido por Sabéia. Segunda, diz Bernardo: "Eles ofereceram ouro à bem-aventurada Virgem para aliviar sua miséria, incenso para afastar a fe ti dez do estábulo, mirra para fortalecer os membros do menino e para expulsar insetos hediondos" Terceira, porque ouro paga tributos, incenso serve para sacrifícios e mirra para sepultar os mortos. Assim, com esses três presentes reconheceram em Cristo o poder real, a majestade divina e a mortalidade humana. Quarta, porque ouro significa amor, incenso prece, mirra mortificação da carne, e devemos oferecer as três coisas a Cristo. Quinto, porque esses três presentes indicavam três qualidades de Cristo: divindade preciosíssima, alma devotadíssima, carne íntegra e incorruptível.

As oferendas também estavam preditas pelas três coisas guardadas na Arca da Aliança. A vara que floresceu representava a carne de Cristo ressuscitada, conforme está nos Salmos: "Minha carne refloresceu etc.". As tábuas em que estavam gravados os mandamentos significavam a alma em que estão escondidos todos os tesouros da ciência e da sabedoria de Deus. O maná indicava sua divindade, que tem todo sabor e toda suavidade. Por ouro, que é o mais precioso dos metais, entende-se a divindade preciosíssima; por incenso, a alma devotadíssima, porque incenso significa devoção e, de acordo com os Salmos, prece ("Que minha prece se eleve como incenso"); por mirra, que é um preservativo da corrupção, a carne que não foi corrompida.

Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, os magos regressaram a seu país por outro caminho. Eis, portanto, a história dos magos: vieram sob a direção da estrela; foram instruídos por homens, melhor dizendo, por profetas; retornaram guiados por um anjo e morreram no Senhor. Seus corpos repousavam em Milão, numa igreja que é agora da Ordem dos Irmãos Pregadores, mas foram depois levados a Colônia. Anteriormente esses corpos tinham sido trasladados para Constantinopla por Helena, mãe de Constantino, depois foram transferidos para Milão pelo santo bispo Eustórgio, por fim o imperador Henrique transportou-os de Milão para Colônia, às margens do Reno, onde são objeto da devoção e da reverência do povo. (Escrevendo cerca de cem anos depois desses fatos, Jacopo engana-se quanto à sua cronologia. Na verdade, as relíquias dos Reis Magos foram transferidas de Milão para Colônia pelo arcebispo Reinaldo de Dassel. chanceler do imperador Frederico Barba Ruiva. em junho e julho de 1164, provavelmente como punição pela insubordinação daquela cidade italiana ao poder imperial)

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Notas e Referências Bibliográficas:

1. Palavra utilizada para referir-se à área do conhecimento que tem os santos e sua veneração por objetos, podendo ser dividida em duas categorias: a hagiografia prática (a produção das narrativas em si) e a hagiografia crítica (o estudo científico da primeira). Cf. DELEHAYE, Hippolyte. Hagiography. In: The Catholic Encyclopedia. Vol. 7. Nova Iorque: Robert Appleton Company, 1910. Disponível em:
 http://www.newadvent.org/cathen/07106b.htm. Acesso em: 27/08/16.
2. O título original do texto é Legendae sanctorum, vulgo historia lombardica dicta, e ficou conhecido como Legenda áurea, isto é, um conjunto de textos de grande valor, como observou o medievalista Hilário Franco Júnior: “(...) (legenda, literalmente "aquilo que deve ser lido", também tinha o sentido de "leitura da vida de santos") de grande valor (daí áurea, "de ouro"). Cf. Apresentação In: VARAZZE, Jacopo de. Legenda áurea: vidas de santos. 4. re. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 12.
3. Ibidem, p. 11-12.
4. Cf. VORÁGINE, Jacobo de La. El libro de la navidad. Madrid: Ediciones Encuentro, 2003, p. 5.
5. BACHET, Jérôme. Civilização feudal: do ano 1000 à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006, p. 220.
6. VORÁGINE, Op. cit. p. 5.
7. BACHET, Op. cit. p. 221.
8. PAIS, Marco Antonio de Oliveira. O despertar da Europa: a Baixa Idade Média. 13. ed. São Paulo: Atual, 2004, p. 56.
9. Para a história da transladação das relíquias dos três magos da cidade de Milão à cidade de Colônia em meados do século XII, Cf. FÉLIX, Madeleine. De Milão a Colônia. In: PESSOA, J. M.; FÉLIX, M. As Viagens dos Reis Magos. Goiânia: Editora da UCG, 2007, p. 69-110.
10. Para os documentos contendo as concessões de Inocêncio IV, Cf. WEBB, Diana. Pilgrims and Pilgrimage in the Medieval West. Londres: I.B. Tauris, 2001, p. 74-75.
11. Cf. VARAZZE, Jacopo de. Legenda áurea: vidas de santos. 4. re. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 149-156. O autor também fez pequenas menções aos magos em outros capítulos: batismo dos magos pelo apóstolo Tomé (ibidem p. 88); a manifestação da estrela aos magos, a ida à Jerusalém, a conversa com Herodes e sua jornada de volta por outro caminho (ibidem, p. 121-122); visita de Santa Paula aos locais santos, incluindo o lugar em que os magos adoraram Jesus (ibidem, p. 210); sobre o ouro presenteado pelos magos que teria sido dado aos pobres pela Virgem Maria (ibidem, p. 247).

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

El misterio de Melchor, Gaspar y Baltasar


Os Reis Magos são algumas das personagens mais cativantes que se conhece, mas, dos quais, realmente se têm poucas certezas.

Uma história universal que navega entre a fantasia e o mito, entre o popular e o sagrado – pois aparecem apenas nos Evangelhos - e que parece ter um fundamento científico.

Este documentário aborda a realidade e a lenda dos Reis Magos, respeitando o mistério e propondo, ao mesmo tempo, um atrativo jogo visual e um olhar contemporâneo. Como se construiu esse mito? De onde veio? Que simbologia encerra? A que respondem os famosos presentes dos três magos, se é que eram três, e monarcas de algum reino e verdadeiramente magos...?
 
 

Para entendê-lo, "El Misterio Melchor, Gaspar y Baltasar" propõe uma investigação e uma viagem, seguindo àquela dos próprios magos (e fazendo entrevistas com os sábios de hoje: historiadores, astrônomos, teólogos, especialistas), mas, também, através da História da Arte.

Sete quadros da pintura clássica1 foram criados com atores, cenários, vestuário e luzes, para nos introduzir virtualmente neles, descobrir seus segredos e desvelar, na medida do possível, seu mistério.

Um documentário de qualidade dirigido a um público universal, com um tratamento dinâmico, que estreou no Natal de 2008 como uma "noite temática" da rede franco-alemã ARTE, de vários canais de prestígio em toda Europa, além das redes autônomas espanholas FORTA e Canal de Historia2.

Dentre os estudiosos do tema que foram entrevistados, destaco especialmente três: Franco Cardini, historiador, medievalista e professor de História do Instituto Italiano de Ciências Humanas, autor do livro “Los reyes magos. Historia y leyenda”, Península, 20013; Madeleine Félix, historiadora da arte e religião, uma das mais importantes pesquisadoras do tema e autora de obras como “Le Livre des Rois Mages”, Desclée de Brouwer, 2000 e “As viagens dos Reis Magos, Editora da UCG, 20074, em coautoria com o teólogo e antropólogo brasileiro Jadir de Moraes Pessoa, da UCG; e Mark Kidger, astrofísico e pesquisador no Instituto de Astrofísica das Ilhas Canárias, autor do livro “The star of Bethlehem: an astronomer’s view”, Princeton University Press, 19995.



 
 

Ficha Técnica:
Título da Série: El misterio Melchor, Gaspar y Baltasar
Data de Lançamento: Dezembro de 2008
Produção: Les Films Figures Libres & MLK Producciones
Distribuição: Arte (2008) (France) (TV), Canal Sur Televisión (2008) e Canal de Historia
Direção: Stéphane Bégoin
Roteiro: Stéphane Bégoin e Sonia Páramo
Duração: 52 minutos
Idioma: Espanhol
Download: 144,5 MB -


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Notas e Referências Bibliográficas:


1. As obras escolhidas foram:

I. Anjos seguindo os Magos, Gustave Moreau, séc. XIX. Museu Gustave Moreau, Paris, França;

II. Entrevista dos Reis Magos com Herodes, Matteo di Giovanni, c. 1490. Palácio californiano da Legião de Honra, Museu de Belas Artes de São Francisco, EUA;

III. A adoração dos magos, El Greco, 1568. Museo Lázaro Galdiano, Madrid;

IV. Adoração dos magos, Andrea Mantegna, 1495-1505. Museu Getty, Brentwood, Califórnia, EUA;

V. O sonho dos magos, capitel da Catedral de São Lázaro de Autun, século XII. Autun, França;

VI. O massacre dos santos inocentes, León Cogniet, 1824. Museu de Belas Artes, Rennes, França.

VII. Retorno de barco pelo porto de Tarso, mosaico da cúpula do Batistério de Florença, séc. XIII. Florença, Itália.

2. Traduzido de: Una historia fascinante, un documental único. Misterio Reyes Magos, 2012. Disponível em: http://misterioreyesmagos.blogspot.com.br. Acesso em: 26/08/16.

3. Para uma entrevista do autor quando da conferência realizada entre 15 e 16 Dez. 2010 na Casa Árabe, Madrid, Espanha e em Sevilha Cf. A. M. (Dir.). Reyes Magos de Oriente. Hola News, 2011. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xnIYgX5MGmY. Acesso em: 26/08/16.

4. Cf. PESSOA, J. M.; FÉLIX, M. As Viagens dos Reis Magos. Goiânia: Editora da UCG, 2007 – obra importantíssima para o estudo dos magos, que já foi resenhada e comentada por nós num outro post.

5. PÁRAMO, S.; BÉGOIN, S. The Mystery of Melcher, Casper and Balthazar. Script. Misterio Reyes Magos, 2012, p.2. Disponível em: http://ciudadpurpura.googlepages.com/MAGI-script.pdf. Acesso em: 26/08/16.

domingo, 21 de agosto de 2016

Marco Polo e os Três Reis Magos: um relato do século XIII


       Quando pronunciamos o nome de Marco Polo as primeiras imagens que surgem em nossa mente são as de um viajante aventureiro da época das grandes navegações, que conheceu muitos mares, terras longínquas, governantes poderosos e povos exóticos... todavia, contrariando o censo comum, tais representações do imaginário coletivo estão parcialmente corretas.

Pouquíssimo se sabe sobre sua vida. De fato sua existência histórica é questionada pelos estudiosos1. Italiano, talvez nascido em Veneza, ele teria se engajado numa longa aventura rumo ao Oriente durante o século XIII (antes da era das “Grandes Navegações”), ao lado de seu pai e de um tio, e as experiências vividas por Polo teriam sido tamanhas que acabaram sendo registradas no Livro das maravilhas ou A descrição do mundo, escrito pela primeira vez no século XIV, obra que se tornou um verdadeiro best-seller em sua época, “fato testemunhado pela quantidade considerável de manuscritos que se conservaram até nossos dias”2.

Nas várias versões conhecidas dos escritos de Polo, há sobretudo duas passagens que nos interessam por sua temática: os miraculosos eventos ocorridos quando da visita dos três magos a Jesus e o famoso Preste João3, que seria um rei cristão e descendente direto dos magos4.

Transcrevemos a seguir na íntegra a parte do relato documental que narra a visita dos magos, localizado nos capítulos 31 e 32 do Livro Primeiro de “O Livro das Maravilhas5:         

“31. A Pérsia – Os Três Reis Magos

A Pérsia era noutros tempos uma grande província, nobre e importante, mas os tártaros destruíram tudo. Na Pérsia encontra-se a cidade de Sava [talvez a atual cidade de Saveh, a cem quilômetros a Sudoeste de Teerã] e dali partiram os três Reis Magos, quando vieram adorar a Jesus cristo. Nesta cidade estão eles sepultados em três magníficos túmulos; encima-os uma tabuleta de pedra, muito bem lavrada. Estes túmulos encontram-se lado a lado; os corpos dos Reis Magos estão intactos, bem com as barbas e cabelo6.



Um chama-se Baltazar, o outro Gaspar e o terceiro Belchior. Misser Marco fez um interrogatório a várias pessoas sobre os três Reis Magos e nada soube acerca de estes três reis, a não ser que eram na verdade reis e que estavam ali sepultados desde a mais remota antiguidade. Mas eu vou contar-vos o que ele averiguou mais tarde sobre este assunto:

Um pouco mais distante, a três dias de viagem, encontra-se um alcáçar chamado Gasalaca [o nome seria Kala-i Atachparastan=Castelo dos Adoradores do Fogo, mas o lugar não está determinado. Segundo indicação dada no capítulo seguinte, deveria situar-se perto de Kashan], isto é, castelo, Castelo dos Adoradores do Fogo. Isto corresponde à verdade, pois estes homens adoram o fogo; e vou dize-vos por que é que o adoram as gentes desse castelo.

Conta-se que, na antiguidade, três reis desta região partiram para adorar a um profeta que acabava de nascer e levaram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra, para saberem se esse profeta era Deus, se era rei da terra ou mago. E comentavam que, se pegasse o ouro, seria um rei terreno, e se pegasse o incenso, seria um deus, e se pegasse a mirra, então seria um mago.

Chegando ao local onde havia nascido o Menino, o mais novo daqueles reis saiu da caravana e foi sozinho vê-lo, e verificou que era parecido consigo próprio, pois tinha a sua idade e estava vestido como ele; ficou assombrado o Rei Mago.

Logo a seguir foi o segundo Rei Mago, que era de meia-idade, e certificou-se do mesmo; aumentava a surpresa deles.

Finalmente foi o terceiro rei, que era o mais velho dos três, e sucedeu-lhe aquilo que tinha sucedido aos outros. Ficaram muito pensativos. Quando se reuniram, contaram uns aos outros o que tinham visto e maravilharam-se todos.

Decidiram, então, ir os três ao mesmo tempo, encontrando o Menino do tamanho e com a idade que lhe correspondia (pois não tinha mais do que três dias). Prostraram-se diante dele, oferecendo-lhe o ouro, o incenso e a mirra. O Menino aceitou tudo aquilo e em troca ofereceu-lhes um cofrezinho fechado. Os Reis Magos voltaram aos respectivos países.

32. Ainda os Reis Magos  

            Após terem cavalgado durante algum tempo, os três reis disseram entre si que queriam ver o que o Menino lhes havia dado. Abrindo o cofrezinho observaram que só tinha dentro uma pedra; surpreendidos, perguntaram o que significaria aquilo. Pois que, tendo o Menino aceitado as três oferendas, compreendido estava que era Deus, rei terrestre e mago; e deveria haver um sentido oculto naquilo tudo.

            Com efeito, o Menino deu aos três reis a pedra com0 a dizer-lhes que fossem firmes e constantes em sua fé. Os três reis pegaram nela e foram deitá-la a um poço, ignorando ainda o seu significado; e quando a pedra caiu ao poço, um fogo ardente baixou do céu, penetrando no poço.


 
            Vendo isto os reis ficaram estupefatos e arrependeram-se de terem atirado fora a pedra, pois que era um talismã. Apanharam o fogo que saía do poço, para levá-lo até os respectivos países e pô-lo num magnífico e riquíssimo templo.

Desde então, esse fogo continua a arder e todos o adoram como se fora um deus. E os sacrifícios e holocaustos que oferecem são todos com esse fogo sagrado; nunca vão buscar outro fogo que não seja esse, tão maravilhoso, andando léguas e léguas para apanhá-lo quando ele se acaba, isto pelas razões que conheceis. São numerosas as pessoas que adoram este fogo naquela região.

Tudo isto foi contado ao meu senhor Marco e também lhe foi dito que, dos três Reis Magos, um era de Sava, outro de Ava [Aveh, a uns 20 quilômetros ao sul de Saveh] e o terceiro de Gasalaca7. E agora, que vos contei esta história, citarei outras cidades da Pérsia, falando dos seus costumes e gente.”

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Notas, Referências Bibliográficas e Filmográficas:

 1. MOLE, Ben. (Dir.). Arquivos confidenciais. Marco Polo. (24 min.) Parthenon Entertainment para o National Geographic Channel, 2011.

2. BROSSE, Jacques. As fantásticas (e verdadeiras) aventuras de Marco Polo. História Viva, São Paulo, n.29, mar.2006. Disponível em:
http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/as_fantasticas__e_verdadeiras__aventuras_de_marco_polo_imprimir.html .

3. Cf. COSTA, Ricardo da. Por uma geografia mitológica: a lenda medieval do Preste João, sua permanência, transferência e “morte”. História 9. Revista do Departamento de História da UFES. Vitória: EDUFES, 2001, p. 53-64. Disponível em: http://www.ricardocosta.com/textos/preste.htm .

4. Ibidem, p.57. É válido observar que as origens do lendário Preste João (Padre João), governante de um maravilhoso reino nalgum ponto das “Índias”, se encontram no século XII na época das Cruzadas, mais especificamente numa carta atribuída ao bispo e cronista alemão Otto de Freising (1114-1158). O reino dele é descrito como uma terra de delícias, de riquezas, povoada por seres fantásticos e humanos muito virtuosos, lugar onde a pobreza e a guerra não existiam, cf. COSTA, op. cit., p. 54-56. No século XII, as narrativas que tratavam das batalhas entre as forças militares do Preste e as terríveis hordas muçulmanas certamente inspiraram os reinos cristãos da Europa. Essa ligação dos reis magos com as cruzadas representou uma importante mudança na imagem dos magos, numa época em que os contatos entre Ocidente e Oriente eram retomados de diversas formas – fosse através da guerra, da religião, da economia ou da política.  Cf. The Crusading Magi In: TREXLER, Richard C. The journey of the Magi: meanings in history of a Christian story. New Jersey: Princeton University Press, 1997, p. 72-75. 

5. POLO, Marco. O Livro das Maravilhas: a descrição do mundo.  Tradução de Elói Braga Júnior. Introdução e notas de Stéphane Yerasimos. Porto Alegre: L&PM, 2009, p.61-63. Para a parte que trata do Preste João ver os capítulos 64 a 68 do Livro Primeiro, cf. POLO, op.cit., p. 97-101.

6. Marco Polo escreveu que em Sava estavam os túmulos dos magos, contudo, como observou Abraham Valentine Williams Jackson, no início do séc. XX se mantinha a tradição popular de que numa cripta da igreja de Mart Mariam ou Mart Maryam (Santa Maria), na cidade de Úrmia, no atual Irã, haviam túmulos de dois ou pelo menos de um dos magos, além da famosa cidade de Colônia, Alemanha, que supostamente abriga as relíquias dos três reis magos desde o século XII. Cf. JACKSON, A.V. Williams. Persia past and present; a book of travel and research, with more than two hundred illustrations and a map.  New York: The Macmillan Company, 1906, p. 102-103. Disponível em:
https://archive.org/details/persiapastpresen00jackrich  e  JACKSON, A. V. W. The Magi in Marco Polo and the Cities in Persia from Which They Came to Worship the Infant Christ. Journal of the American Oriental Society, v.26, p.79-83, 1905, ver especialmente p. 83. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/592877 . Outra tradição sustenta que teriam sido os magos os construtores da igreja de Úmbria, onde um deles seria sepultado mais tarde, cf. ABOONA, Hinnis. Assyrians, Kurds, and Ottomans: intercommunal relations on the periphery of the Ottoman Empire. Amherst, Nova Iorque: Cambria Press, 2008, p. 23.

7. Para as cidades de onde teriam partido os três reis magos Cf. JACKSON, A. V. W. The Magi in Marco Polo and the Cities in Persia from Which They Came to Worship the Infant Christ. Journal of the American Oriental Society, v.26, p.79-83, 1905. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/592877 .

segunda-feira, 7 de março de 2011

Detetives do Passado: Os Três Reis Magos

       “Os personagens mais misteriosos da Bíblia”. É assim que o estadounidense Bob Brier, egiptólogo e especialista em paleopatologia, refere-se aos magos logo na abertura de Os Três Reis Magos, episódio da série Detetives do Passado1.     
Guiando a audiência dentre os caminhos desta rica e milenar temática, Brier busca por evidências que nos ajudem a compreender melhor alguns dos “erros” e crenças mais comuns até hoje alimentadas sobre os Reis Magos.
Valendo-se de sua marca registrada na busca por algo - que é a animação, um modo de falar ás vezes bem peculiar (“Herodes não era um campista feliz”) e ritmo acelerado2, Brier visita muitos lugares, dos mais comuns – como uma loja de cartões nas vizinhanças do Bronx, em Nova Iorque – aos mais ricos e não tão conhecidos – como Persépolis, a capital do antigo império Persa, ou a Catedral de Colônia, Alemanha, onde repousam as supostas relíquias dos Três Reis.

O mosaico de meados do século VI em Ravenna, Itália, na Igreja de Santo Apolinário, o Novo, é um indício da origem oriental dos magos: o chapéu pontudo e calças que as três personagens representadas trajam na composição, fornecem ricos e úteis detalhes.
E quando foi que Jesus nasceu exatamente? 17 de abril do ano 6 a.C. É esta a data que Brier obtém com o auxílio dos estudos do astrônomo Michael Molnar, da Rutgers University, sobre a Estrela de Belém. A tripla conjunção entre Saturno, Júpiter e Venus, ocorrida na constelação de Áries, uma moeda do século I e programas de computadores auxiliam na exposição desta teoria – que tem sido uma das mais bem aceitas entre os astrônomos contemporâneos.
Se os crânios que repousam no relicário de ouro e pedras preciosas no interior da Catedral de Colônia foram mesmo encontrados pela imperatriz Santa Helena no séc. IV, e se de fato pertencem aos três viajantes orientais que teriam visitado Jesus, estas, são questões que permanecem em aberto.
Muito instrutivo e agradável aos olhos (estejam atentos às várias belas obras de arte que povoam as cenas do vídeo). Assim defino este documentário que, como eu bem já disse lá no meu primeiro post, marcou o “lugar de origem” do meu interesse, e também dos meus estudos, sobre Os Três Reis Magos.


Ficha Técnica:
Título da Série: Detetives do Passado - Os Três Reis Magos (Mummy Detectives - The Three Kings)
Produção e distribuição:  The Learning Channel (TLC-UK)
Data de Lançamento: 23 de dezembro de 2004
Exibição: Discovery Channel/ Discovery Civilization
Produção e Direção: Peter Spry-Leverton
Roteiro: Bob Brier
Duração: 45 minutos

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Notas e Referências Bibliográficas:

1. SPRY-LEVERTON, Peter. Detetives do Passado – Os Três Reis Magos. (45 minutos) The Learning Channel, UK: 2004. Disponível em: http://www.4shared.com/rar/59HWPOpd/detetives_do_passado-os_trs_re.html.
2. ROSE, Mark. The Three Kings & the Star. Archaeology. Dez./2004. Disponível em: http://www.archaeology.org/online/reviews/threekings/ .

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Dia de Santos Reis: origens históricas e práticas contemporâneas

Na tarde de 11 de dezembro de 2010 posso afirmar que de fato compreendi o sentido da Epifania. Uma chuva fraca iniciara-se. O cachorro de meu irmão latia lá fora, perto do portão de entrada, anunciando que algo se aproximava da casa. Um “tamborilar” estranho, incomum, podia ser ouvido de dentro de casa, da cozinha, onde eu estava. Vinha da rua. Uma figura infantil, trajada com uma fantasia multicores, aproximou-se do portão e dirigiu-se a mim indagando “aqui tem Folia de Reis...?”. Eu, da janela, surpreso – por nunca ter presenciado esta cena, mas por ter percebido do que se tratava – respondi “que não...!”, pois como bem sei (ou achava que sabia) as casas a serem visitadas pelos grupos de Folia de Reis são previamente definidas. Eu nunca vira uma Folia de Reis de perto, e muito menos no meu distrito. Então, um senhor mais velho, trazendo uma viola pendurada na frente e segurando um “estandarte dos reis” perguntou-me se poderia entrar em nossa garagem para cantar. Eu disse alegremente “que sim...!”. Outros vários foliões, incluindo homens, mulheres e crianças, adentraram o quintal da frente e a cantoria iniciou-se. Violas, pandeiros, um outro instrumento que assemelhava-se a uma sanfona, mas menor, três crianças fantasiadas coloridamente, eu segurava o estandarte, como “padrinho”, e próximo de mim minha mãe, que chegara depois, “madrinha” sem saber, olhava desconfiada, sem entender quem eram aquelas pessoas estranhas que eu deixara entrar em casa1.
Este verídico e inusitado episódio, que tomo como um “fato histórico” de minha vida, nos permite construir uma breve, mas necessária reflexão, sobre o que os cristãos celebram no dia de hoje, 6 de janeiro: a Epifania.
Quando afirmei que sabia de imediato do que se tratava, ao ver o menino fantasiado, isso ocorreu em função de minhas leituras e pesquisas sobre os magos, que no caso do Brasil, guiar-me-ia indubitavelmente, em algum momento, para a leitura de um texto sobre o assunto – Folia de Reis. Mas veja que eu nunca havia participado de uma. O mesmo vale para minha mãe, só que no caso dela, conhecia menos ainda a festividade. Isso quer dizer que em nossos dias, nos grandes e médios centros urbanos, estas práticas de devoção aos magos estão cada vez mais reduzidas a certos espaços, ainda que tenhamos a impressão de que àquilo que costumamos chamar genericamente de Folia de Reis seja uma tradição “comum”. Se isto ocorre em relação às Folias, o quadro sobre a compreensão do sentido da Epifania é mais enuviado ainda.
Primeiro, vejamos sucintamente as origens das Folias no Brasil. Suas origens mais remotas encontram-se nos autos religiosos medievais, comuns já no século XI, especialmente os autos natalinos, nos quais a cena da Adoração dos Magos passa a ser parte integrante: os chamados Officium Stellae2. Estas práticas serviram como base para os folguedos e festividades que ocorriam em várias datas do ano, chamados de Festas dos Foliões, e que eram marcados por sátiras aos temas religiosos – com encenações e danças. Dentre estes temas satirizados estava também a Festa dos Reis Magos. Existem documentos comprovando a existência destas Folias nos cancioneiros ibéricos dos séculos XVI e XVII. Um dos registros mais antigos conhecidos está na poesia de Gil Vicente (1465?-1536?): “(...) Yo no soy nada de prosas/ Ni salmos, ni aleluias/ Agradan-me las folias/ Y bailes; e otras cosas/ Saltaderas son las mias”3.
Além das folias, as Reisadas (ou Cantar os Reis ou Pedir os Reis) e as Janeiras também são costumes seculares em Portugal. Embora sejam práticas bastante mescladas hoje em dia, outrora fazia-se a distinção entre as reisadas e as janeiras – a primeira seria de caráter mais religioso e a segunda de caráter profano4. Contudo, não se pode deixar de lado as influências de outras festividades, como as pastorinhas portuguesas, os villancicos e mascaradas da Espanha, ou ainda os noëls na França e os Sternsingers na Alemanha6 – assim, por toda a Europa, houveram por séculos celebrações que rememoravam a jornada dos visitantes do menino Jesus. Isto nos permite afirmar então que, embora as raízes de nossa Folia estejam em parte fincadas nas tradições ibéricas, também sofreram, e ainda sofrem, a forte influência destes diversos festejos natalinos, e outros mais.
   A introdução da devoção aos magos no Brasil fez-se através do trabalho missionário jesuítico – autos religiosos, pregações, procissões e em muitas outras atividades. A título de exemplo, os nomes dos magos eram dados a lugares e pessoas, já em fins do século XVI. Uma carta de 1562, escrita pelo Pe. Leonardo do Vale, já menciona uma “festa dos Reys”7.

São documentados reisados e janeiras aqui no Brasil nos idos do século XVIII, antes mesmo de termos as Folias propriamente ditas. O chamado Manuscrito de 1818 – de autoria anônima, criado no Brasil e que traz estrofes e versos da letra de uma canção para ser entoada em festejos natalinos - recolhido e estudado pelo pesquisador e musicólogo Antônio Alexandre Bispo, parece apresentar três indícios importantes para a compreensão da formação das Folias no Brasil: 1º) alocado e estudado em Portugal, o documento é citado lá como um novo estilo de se cantar os reis; 2º) seu conteúdo é religioso e católico; e 3º) este, exterior ao documento, consiste em registros do uso do termo folia à época de sua composição, como por exemplo o fez o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire ao referir-se a uma festa na Província de Goiás em 18198.
Caracterizando-se por um cortejo de caráter devocional por excelência, e marcado por uma organização interna, que define atribuição de atividades rituais aos seus integrantes e participantes, a Folia de Reis busca reviver todo o percurso da jornada que os Três Reis Santos fizeram, desde sua longínqua terra no Oriente até sua chegada a Belém para adorar Jesus. Os grupos de foliões recebem nomes distintos nos diversas locais de sua ocorrência: Terno de Folias de Reis, Reisado, Folia de Santos Reis, Terno de Reis, e outros9. Em cidades como Sorocaba, por exemplo, adota-se o nome Companhia de Santos Reis, evitando assim o uso do termo folia, devido ao sentido de algazarra e excesso que esta palavra assume hoje em dia10.
Ocorre com maior preponderância nas regiões Sudeste e em partes da Norte, sendo que no Nordeste, Sul e Centro-Oeste sua ocorrência é menor, dando lugar a outras festividades que fazem algum tipo de referência aos Reis Magos. É no Estado de Minas Gerais que se observa o maior contingente de praticantes e adeptos – mais de 4 mil grupos11.
Estende-se comumente do período do Natal, que se inicia no fim de novembro, até 6 de janeiro, dia de Reis. Como observa Guilherme Porto em seu clássico estudo “As folias de Reis no Sul de Minas”, a época das folias pode ir de 25 de dezembro a 6 de janeiro, marcando simbolicamente os 13 dias de viagem dos magos, ou então de 25 de dezembro a 6 de janeiro, ou ainda durar três dias ou mesmo um só12.
Quanto à sua composição, é bastante variável, segundo os municípios e regiões do país. Poderíamos sintetizá-la em três grupos de indivíduos: aquele que leva a bandeira ou estandarte de Santos Reis; as personagens típicas, das quais poder-se-ia citar os palhaços; e os instrumentistas e cantores13. Além destes temos os demais foliões, que são àqueles que acompanham a folia sem uma função ritual estabelecida e os que esperam a passagem do cortejo em sua própria casa.
Ao percorrer o roteiro, trajeto ou giro da folia, ou seja, todo o caminho pelo qual a folia passa – que é comumente planejado de antemão e inclui um local de saída, os “pousos” de parada, que são as casas a serem visitadas, e um local de chegada, no qual a Festa de Santos Reis ocorrerá em 6 de janeiro -  os foliões buscam celebrar o nascimento de Jesus ao percorrer simbolicamente os passos dos magos peregrinos. Conforme observa Neide R. Gomes, vice presidente da Comissão Paulista de Folclore, professora e musicóloga, esta celebração do natalício de Jesus menino é o elemento comum que une toda a diversidade das folias no Brasil14.
Se valendo de instrumentos tais como viola, sanfona, caixa, adufe ou pandeiro, e até mesmo violinos, bandolim, violão, cavaquinho reco-reco e clarineta15, os cantores e instrumentistas têm um verdadeiro cancioneiro registrado em suas memórias. Tem música para partida, para chegada, para abençoar as casas ao longo do trajeto e para outras várias possíveis situações. “É noite, lá fora tem gente/ ô menino, vá ver quem é./ É os treis Reis de Oriente/ na barquinha de Noé”, é um exemplo destes ricos versos usados nestas Cantorias de Reis16.
A bandeira ou estandarte carregado é o objeto ritual mais sagrado nas folias. Feita de pano brilhante e afixado numa haste vertical, a ele se afixam fitas multicores, fotos de santos ou pessoas e até cédulas de dinheiro. É carregado pelo bandeireiro e entregue temporariamente aos donos da casas em que as folias chegam.



Personagem interessante nas folias é a do palhaço. Também chamado de bastião, alferes, mascarados, Mateus, morongo, marengo, pastorinhos, malungos, marungo17, a atuação destes alegres e dançantes integrantes evoca os soldados que teriam perseguido Jesus e os próprios magos. Contudo, como observa Carlos R. Brandão, sua atuação opõe-se a de todos os outros. Em certos grupos, como é o caso dos grupos da cidade de Mossâmedes, em Goiás, o palhaço faz provocações e piadas com os foliões. Mas, em ocasiões especiais, ou no último dia do trajeto, ele é convidado a retirar sua máscara, prostrar-se diante do presépio e pedir perdão18. Trata-se de uma conversão simbólica. Nas “folias paulistas e mineiras, os palhaços vão adiante, enquanto nas fluminenses ficam na retaguarda, proibidos de ultrapassar a bandeira”19. Interessante estudo sobre o tema é a tese de doutorado de Daniel Bitter intitulada “A bandeira e a máscara: estudo sobre a circulação de objetos rituais nas folias de reis”, de 2008, e publicada em 2010 pela 7 Letras, que avalia o lugar dos objetos rituais nas folias de reis como mediadores entre o social e o simbólico,  como materializadores de vínculos fundamentais no contexto das folias20. Dentre estes objetos encontra-se a máscara do palhaço folião.
Uma última, mas importantíssima questão que gostaria de tratar aqui diz respeito à Epifania. Ainda que o Dia de Reis ou Santos Reis seja celebrado entre nós no dia 6 de janeiro, o nome mais apropriado para a solenidade que a liturgia cristã celebra nesta data é Epifania. Termo de origem grega, significa “aparição, manifestação”, e refere-se a uma aparição de natureza sobrenatural e benévola. É a primeira manifestação da divindade de Jesus aos povos da terra, logo após seu nascimento, reconhecida através da visita dos magos que vêm lhe trazer valiosas e simbólicas oferendas. É vista pelos pensadores cristãos, desde os primórdios do cristianismo, como sinal da ação inclusiva da mensagem salvífica de que Jesus era portador. Aos magos, sendo gentios (não judeus), foi revelada através de um sinal astronômico a iminência da chegada do messias, do cristo, “o ungido”.
A religiosidade ou piedade popular deu-lhe o nome de Folia de Reis. “É das festas mais antigas (séc. IV), celebrada tanto no Oriente como no Ocidente, embora o objecto principal desta festa, nas Igrejas do Oriente, seja o *Baptismo do Se­nhor que, entre nós, se celebra como so­le­ni­dade normalmente no domingo que encerra o ciclo do Na­tal (...)”21.
O biblista e exegeta Antônio M. Galvão faz críticas aos estudiosos por comumente tratarem do assunto de modo simplista, superficial e descuidado. Os reisados, lendas e cantos populares, todos focados na longa jornada dos magos parecem esquecer-se, ou deixar em segundo plano, o dia em que na tradição cristã o Senhor “se mostrou às nações”22. Assim, embora não negue a importância ou riqueza das folias, o autor atenta-nos para camadas de sentido mais profundas e significativas que repousam sobre estes folguedos natalinos. Observa ainda que entre os cristãos do Oriente esta riqueza epifânica tem sido melhor observada e celebrada.
Para além de enunciar este “descuido”, creio que é importante fazer ecoar que as soluções encontradas por muitas folias ao longo dos anos, na tentativa de clarificar as áreas de silêncio que os evangelhos nos oferecem sobre a viagem dos magos, devem ser aceitas como a capacidade criativa que é própria da religiosidade popular. Ainda que a ausência de teoria e método histórico/teológico incorra em imprecisões, interpretações questionáveis e muitas vezes superficiais, o conhecimento e experiência que emanam dos foliões não devem ser subestimados.
Além de fontes históricas em potencial, as Folias de Reis são um verdadeiro patrimônio cultural, memória viva da religiosidade cristã e manifestação de brasilidade.           
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Notas e Referências Bibliográficas:
1.  Padrinho e madrinha são termos usados para referir-se ao dono(a) da casa que recebe a visita da Folia. Cf. CAVALHEIRO, C. C. Folia de Reis em Sorocaba. Sorocaba, SP: Edição do Autor, 2007, p. 86.
2. PESSOA, J. M.; FÉLIX, M. As Viagens dos Reis Magos. Goiânia: Editora da UCG, 2007, p. 132.
3. Ibidem, p. 134.
4. Ibidem, p. 135
5. Ibidem, p. 139.
6. Para maiores detalhes conf. SILVA, Affonso M. Furtado da. Reis magos: história, arte, tradições: fontes e referências. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 2006, p. 36—45.
7. Cf. PESSOA; FÉLIX, p. 150-151.
8. Ibidem, p. 164-167.
9. CAVALHEIRO, p. 22.
10. Idem.
11. NOEL, F. L. Manifestação de fé em ritmo de folia. In Problemas Brasileiros, n.397, Ano XLVII, p. 2-7, jan./fev. 2010, p. 2-3. Também pode ser lido online em:
http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas_sesc/pb/artigo.cfm?Edicao_Id=361&breadcrumb=1&Artigo_ID=5559&IDCategoria=6363&reftype=1 .
12. PORTO, G. As folias de Reis no Sul de Minas. Rio de Janeiro: Funarte; Instituto Nacional do Folclore, 1982, p. 13.
13. Ibidem, p. 19.
14. “O objetivo é sempre o mesmo: comemorar o nascimento de Jesus. Em cada região se canta isso de forma diferente, além de variarem os instrumentos. Há folias até com pífanos, no nordeste. Algumas apresentam as figuras dos Reis Magos. E há também folias só de palhaços”, cf. NOEL, p. 3.
15. PORTO, p. 24-25.
16. MACCA, M.; ALMEIDA, A. V. de. Santos Reis: protetores dos viajantes. São Paulo: Ed. Planeta, 2003, p. 29. 
17. CAVALHEIRO, p. 25.
18. BRANDÃO, C. R. A folia de reis de Mossâmedes. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1977, p. 5; 32.
19. NOEL, p. 4.
20. Cf. BITTER, D. A bandeira e a máscara: estudo sobre a circulação de objetos rituais nas folias de reis. Dissertação de Doutorado. UFRJ, IFCS. Rio de Janeiro, 2008. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp086548.pdf .
21. FALCÃO, M. F. Enciclopédia Católica Popular (Paulinas Editora), vocábulo Epifania.                                     Disponível em: http://www.portal.ecclesia.pt/catolicopedia/artigo.asp?id_entrada=686 .
22. GALVÃO, A. M. A revelação de Jesus: na visita dos “Reis Magos” a Belém. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2002, p. 11-14.